Brogue do Cassano
 

28 setembro, 2006  

Tecnologia não é nada sem conteúdo

Em um dos episódios da série de animação Futurama, dos mesmos criadores de Os Simpsons, um personagem que viaja no tempo para o futuro se depara com um sonho bem estranho, em que ele aparece com uma cueca pós-moderna.

Vários “figurantes” de seu sonho atestam a qualidade da roupa íntima. Ou seja, um pesadelo. Já desperto, no café da manhã ao lado de robôs, alienígenas e outras criaturas esquisitas, ele descobre que a publicidade em sonhos é trivial no futuro, que “todo mundo sonha com marcas”, empurradas cérebro adentro por ondas de rádio. Por fim, ele mesmo acaba querendo comprar a tal cueca.

Há alguns milhares de anos, alguém inventou a escrita. Pouco depois, Moisés veio com os 10 Mandamentos, que não deixam de ser uma ação de comunicação de massa. Não há humano ocidental quem nunca tenha ouvido falar deles. Com Gutemberg, os Mandamentos viraram bíblias impressas e a propaganda ganhou tipologia. Tem sido assim com toda e qualquer tecnologia que se preste à comunicação: mais cedo ou mais tarde, ela atende a necessidades de marketing.

O assunto passa a exigir atenção redobrada hoje, quando vivemos em um cenário de inovações tecnológicas se multiplicando como gremlins incontroláveis, quase todas envolvendo ou afetando a mídia e a comunicação e todas num contexto onde simplesmente a publicidade já não resolve todos os problemas. Nem em sonhos.

Desenha-se aí um dilema frankeinsteiniano. Tão importante como utilizar novas tecnologias para o marketing é saber como fazer isso sem violentar o consumidor. Hoje podemos, tecnicamente falando, invadir nosso público-alvo com a precisão de um míssil guiado por GPS. Mas mesmo os bombardeios cirúrgicos dos norte-americanos deixam seus estragos colaterais.

Nosso “poder” é cada vez maior. Em 31 de março, o eMarketer.com publicou um artigo sobre uma bizarra solução envolvendo nanorrobôs implantados no cérebro que recebem anúncios por radiofreqüência e os embutem em nossos sonhos. O delirante artigo, com cara de primeiro de abril, chegava a citar marcas como Coca-Cola e Speedo, e previa um mercado global de US$ 3 bilhões para publicidade em sonhos em 2020. Ou seja, se não bastasse sermos interrompidos e impactados por propagandas durante o dia, elas ainda invadiriam nossas freudianas fantasias eróticas com a professora do ginásio.

O exemplo é extremo, mas quando a tecnologia se torna cada vez mais pessoal e intransferível, é impossível pensar em comunicações de marca que não sejam úteis, relevantes, divertidas e desejadas pelo público. Minha tese: para chegar a níveis tão avançados de intimidade tecnológica com o público, toda comunicação precisa ser por conteúdo.

Pois vejamos: o celular é alardeado aos quatro ventos como a mídia do futuro. Afinal, é um dispositivo multimídia que você carrega para cima e para baixo, capaz de receber conteúdos nos mais diversos formatos. Mas exatamente por ser quase que um apêndice de nossos corpos, ele faz parte da esfera privada de nossas vidas. Ninguém gostaria de ver uma oferta de sanduíche aparecer tatuada no braço esquerdo. O mesmo se fala para a propaganda invasiva e interruptiva que chega por SMS, ligação, fotomensagem ou por bluetooth.

Em meio a calorosos debates contra a poluição visual causada pelos painéis de publicidade, a Central de Outdoor está testando em São Paulo um conceito já utilizado especialmente na Europa, o da integração da mídia urbana (outdoors, vitrines e pontos de ônibus, por exemplo) com os celulares por meio de conexões sem fio bluetooth. Lá fora, há o caso da banda Coldplay, cujos cartazes do novo álbum convidavam os pedestres a baixarem o single da banda para seus celulares. Tudo muito legal, mas é como alguém descer de pára-quedas na sua casa oferecendo uma fatia de bolo. A torta pode ser deliciosa, mas a forma como ela chegou a você é invasiva.

É importante que o púbico queira receber

Isso acontece porque, na verdade, conteúdo é tudo. Uma comunicação de conteúdo inclui a mensagem e a forma como ela chega. Portanto, é preciso ter em mente o bom e velho opt-in quando criamos qualquer comunicação digital, tecnológica, cibernética, biônica, o que for.

Mas isso não basta. Mais que um “aceito receber”, é importante que o público “queira” receber.

Quando pudermos colocar marcas em sonhos, tem que ser mais como as pílulas azuis e vermelhas de Matrix do que como a cueca de Futurama. A pessoa, cujo aparelho de ar-condicionado pifou, tem que querer sonhar com uma refrescante Halls, ou sonhar com uma Brahma gelada e uma loura de biquini. E quando ela quiser sonhar, é preciso estarmos prontos para entregar um sonho de qualidade. Esse é outro elemento fundamental quando pensamos em comunicação por conteúdo tecnológica: a entrega.

Acabou a era do publicitário que cria o outdoor e vai para casa esperar o prêmio em Cannes. O universo dos bits e bytes é regido por uma lei invisível mas inescapável: a Lei de Murphy. Tudo pode sempre dar errado, e geralmente dá. É preciso garantir a entrega da experiência de forma ainda mais cuidadosa do que nas outras mídias. Um cuidado constante e uma preocupação extra com a infra-estrutura tecnológica. Um belo conteúdo em banda larga que é pesado demais para o consumidor baixar pode não surtir efeito algum. Experimente assistir Guerra nas Estrelas com o vídeo engasgando. Uma entrega num formato inapropriado pode arruinar a criação.

O inverso também é válido. O Pearl Jam, banda de Seattle, resolveu deixar para os fãs a tarefa de promover o videoclipe de Life Wasted, de seu mais recente álbum. Como eles fizeram isso? Licenciaram o vídeo sob a égide do Creative Commons, permitindo a livre cópia e distribuição do clipe. Ele logo foi parar no Bit Torrent, plataforma de troca de arquivos que é o pesadelo da indústria cinematográfica, por ter se tornado o playground da turma antenada que intercambiava MP3s no Napster e agora troca álbuns inteiros e filmes pelo Torrent.

Mais do que o conteúdo, a forma como a música foi distribuída disse muito sobre a banda, e certamente a fez subir no conceito de uma considerável legião de pessoas que acreditam em software livre, Creative Commons e tudo o que há de mais moderno em termos de direitos autorais, criações coletivas e colaborativas etc. Nesse caso, a forma da distribuição é a mensagem. E isso faz com que as pessoas busquem a comunicação, que ela seja desejada.

No dia-a-dia, parte de nosso trabalho é difundir a visão de Comunicação por Conteúdo, que não vem reinventar a roda, mas, em resumo, transformar a comunicação de marca: precisamos colocar o público no controle da comunicação, e não o gerente de mídia. Quando o meio para levar a marca ao consumidor é tecnológico, a preocupação com esses valores é redobrada, porque temos, como nunca, o poder de sermos interruptivos, invasivos, de empurrar a mensagem de marca internet/celular/cérebro adentro. Mas não queremos isso.

Queremos ver a tecnologia, seja ela qual for, como uma facilitadora para que o público busque e encontre a mensagem de marca a qualquer hora e qualquer lugar, porque ela é útil, relevante e divertida para ele. Por que ele deseja se envolver com a comunicação. Como dizia Ben, tio de Peter Parker em Homem Aranha, “com grande poder vem grande responsabilidade”. Use a tecnologia com consciência. E conteúdo.

Artigo publicado no Blog da Selulloid AG, no Web Insider e na Revista Target.

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25 setembro, 2006  

Capítulo 11 - Rumo ao Klimandjaro

Falta pouco para o fim do mundo. Ou para ele ser evitado. Enquanto o Deus das Máquinas encontra motivação para voltar ao mundo dos vivos (exatamente para acabar com o mundo dos vivos), um africano, um Helsing, uma Stocker, um bebê e um leopardo cruzam a África. Leia aqui o Capítulo 11 da saga colaborativa escrita ora por mim, ora por Leonardo Paiva.

- Prelúdio
- Capítulo 1
- Capítulo 2
- Capítulo 3
- Capítulo 4
- Capítulo 5
- Capítulo 6
- Capítulo 7
- Capítulo 8
- Capítulo 9
- Capítulo 10

O pelo do leopardo é duro. Duro e pontiagudo. Duro e pontiagudo como se estivesse ali, pegando poeira e endurecendo, por uns duzentos anos. E está. Por isso mesmo, espeta o traseiro de Vanildo, enquanto ele incessantemente seca o suor da testa queimada pelo sol escaldante das savanas africanas. Sol este que, inclemente, escalda sem cessar a pequena e intrépida trupe que segue rumo ao monte Klimandjaro, na Tanzânia.
– Eu continuo sem entender porque você não prefere um carro, um caminhão ou qualquer veículo mais confortável – berra Vanildo contra o vento, tentando se fazer entender por Yohana Lauwo, que guia o Leopardo.
– Yohana de máquinas não gostar.
– De nenhuma máquina?
– Nenhuma máquina.
– Nem um computador? – arrisca Vanildo.
– Nem computador.
– Nem relógio de pulso? Relógios de pulso são legais. Uma vez comprei um na Transilvânia que tinha uns morceguinhos...
– Nem relógio de pulso – interrompe o africano, fazendo uma curva ao leste rumo a uma montanha de formato triangular e neve no cume.
Amarilda Stocker tenta dar de mamar ao bebê enquanto o Leopardo salta por cima de arbustos, a quase 100 Km/h.
– Vani, você já sabe o que a gente vai fazer nesse lugar?
– Eu? Nós? Errr... Yohana... o que exatamente a gente vai fazer na montanha?
– Matar o Deus das Máquinas Vanildo e Amarilda irão. E reformatar o planeta o bebê irá.
Ao se sentir mencionado, o bebê parou de mamar e começou a recitar o Alcorão em latim e a Bíblia em árabe.
– Isso eu sei... a parteira já falou isso. Mas... por quê? E por que a gente?
– Isso Yohana não sabe... De família de matador de vampiros você ser. E derrotar bebês malignos deve. E sangue imortal Amarilda ter.
–Eu?!?!?
– Nenhuma outra Amarilda Yohana conhece.
– Mas eu não sou imortal!
– No alto da montanha isso Yohana descobrir vai.
O resto da viagem prossegue em silêncio, quebrado apenas pelos versículos em árabe recitados pelo bebê. Conforme se aproximam da montanha, o cume nevado se revela coberto por nuvens negras, repletas de relâmpagos.
Curiosamente, mesmo eles estando quilômetros distantes de qualquer cidade, todos ouvem claramente o barulho de máquinas trabalhando. Muitas máquinas. Muitas mesmo. Súbita e igualmente de forma curiosa, Amarilda sente um desejo incontrolável de estar dentro de um Chevette velho.



17 setembro, 2006  

Eduardo Galeano na Uerj (ouça a palestra)

No comecinho de setembro, tive a oportunidade de assistir a uma palestra do escritor uruguaio Eduardo Galeano. Dono de uma simpatia e simplicidade ímpar, falou por mais de uma hora para uma platéia de estudantes e professores de espanhol na abertura de um simpósio internacional na Uerj.

O tema da palestra era "O poder da palavra", e o conferencista, falando em português e lendo textos seus em espanhol, reservou boas delas para os ouvintes. Um show de bom senso, coerência, visão de mundo e poesia.

Como todo bom escritor latino-americano, orgulha-se de ser o que costumamos rotular de comunista ou socialista. Confesso que, fora das frias páginas da teoria, já não sei dizer o que estes termos significam. Prefiro não me prender a estereótipos. Chame do que quiser. Eduardo apenas quer um mundo justo e igualitário. É pedir muito?

Gravei a palestra e a sessão de perguntas. Para ouvir, clique nos links abaixo. Para salvar os arquivos (formato MP3), clique com o botão direito e selecione "Salvar arquivo como...".

Palestra de Eduardo Galeano na Uerj (MP3 - 45 min. - 2,6 Mb)
Perguntas a Eduardo Galeano na Uerj (MP3 - 25 min - 1,5 Mb)

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15 setembro, 2006  

Agora com comentários!

Depois de muito demorar, resolvi habilitar os comentários aqui no Blog. Agora, todos os meus leitores (leia-se Leonardo Paiva e mais alguém) já podem botar pitaco em tudo que escrevo. O sistema é provido pela britânica Enetation, dica do próprio Leonardo Paiva.

Com essa colaboração ativa, já posso até considerar o Brogue um legítimo site da Web 2.0. Por isso, lanço logo colaborativo do Brogue Web 2.0 Beta. A logomarca é presente do divertido Web2.0V2Logo Creatr (Beta), uma brincadeira com o estilo marcante de sites como Blogger, Flickr e afins.



14 setembro, 2006  

O poder dos bebês

Tanto falamos em bebês em nossa saga colaborativa rumo ao fim do mundo, escrita por mim e por Leonardo Paiva, que até o Google entrou na onda. Vejam um anúncio selecionado por ele para aparecer aqui:

Anúncios Google
Babyslings, vc conhece?
Bebê feliz, calmo e sem cólicas! Um jeito "zen" de levar seu filhote
www.babyslings.com.br
Anuncie neste site


Será que Amarilda Stocker usa um babysling para levar seu pimpolho para a Tanzânia no lombo de um leopardo?

 

Varig, Varig, Varig


Tive a feliz oportunidade de voar de Varig pela primeira vez desde o quase sumiço da empresa. Foi uma ponte-aérea Rio-SP. Quantas surpresas!

1 - Pontualidade britânica, na ida e a na Volta.
2 - Surpresa negativa: a revista Ícaro parece ter tido suas asas derretidas no calor do momento, e as aeronaves não vêem sabão (pelo lado de fora) há muito tempo.
3 - Sanduíche quente, jornal do dia, café e refrigerante na ida.
4 - O choque total: Já tinha ouvido falar, mas ver e sentir é outra coisa: hambúrguer de picanha na volta. Quentíssimo. Uma delícia.
5 - O chocolatinho Kopenhagen, mais magrinho, retornou ao menu também.
6 - Milhas em dobro.

Essa é a minha Varig! Para a experiência ser completa, só faltava liberar aqueles lencinhos perfumados para todos. Eles estavam lá, mas só para quem pedia.

Ao fim da viagem, aproveitei os últimos meses da deliciosa caminhada pela pista do Santos Dumont (que será substituída pelos impessoais fingers da reforma do aeroporto) cantarolando: "Estrela brasileira, de Norte a Sul, iluminando... o céu azul..."

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12 setembro, 2006  

Capítulo 10: Deus Ex-MachinaPermalink

Com um pequeno atraso, já está no ar o capítulo 10 de nossa saga colaborativa, escrita por mim e por Leonardo Paiva. Neste episódio, descobrimos mais sobre o topetudo Johnny Hellmont e o que ele faz no meio de toda essa confusão.
- Leia agora o Capítulo 10
- Prelúdio
- Capítulo 1
- Capítulo 2
- Capítulo 3
- Capítulo 4
- Capítulo 5
- Capítulo 6
- Capítulo 7
- Capítulo 8
- Capítulo 9



11 setembro, 2006  

O 11 de setembro nosso de cada dia

Onze de setembro. Dia de ficar com pena dos Estados Unidos. Dia de lembrar que a história é contada pelos vitoriosos. Mesmo se esta é a história de uma derrota.

Se tivessem morrido pessoas nas Torres Gêmeas na mesma proporção com que vidas civis se perdem no Iraque, teriam sido milhões, e não duas mil, as vítimas daque fatídico dia de céu azul em Nova York.

Então por que não nos comovemos com as histórias dos bombeiros heróicos que sobreviveram a um bombardeio cirúrgico americano? Por que nos preocupamos em rezar pelos mortos do velório na capelinha quando há uma vala comum lotada atrás de nós?

Rio de Janeiro. Um Honda em alta velocidade bate. Capota. Cinco belos jovens de classe média morrem. Uma morte estúpida. Imbecil. Desnecessária. Chocante. Vira manchete de jornal. A TV cobre a missa de sétimo dia. A classe-média-indignada veste camisetas e ameaça tomar as ruas em passeatas contra a imprudência no trânsito.

Poucas semanas antes, um carro em alta velocidade acerta a traseira de um caminhão. Cinco jovens morrem de forma estúpida. Imbecil. Desnecessária.
Eram jovens pobres. Vinham de um Baile funk. O outro carro capotou na Lagoa. Este, bateu na Avenida Brasil.

O acidente ganha espaço nas páginas dos jornais populares.

Ninguém vestiu camisetas contra a imprudência no trânsito. Ninguém cobriu a missa de sétimo dia.

No nosso onze de setembro diário, nós somos ao mesmo tempo árabes e americanos.

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06 setembro, 2006  

O peito do pé do Pedro

O peito do pé do Pedro é preto
O dedo do pé do Pedro é preto
O braço esquerdo do Pedro é preto
O braço direito do Pedro é preto
Pedro é preto
Pedro não conheceu o pai
Pedro não consegue arrumar emprego
Pedro nunca entrou numa universidade
Pedro ganha menos pelo mesmo trabalho
Pedro é sempre parado em blitz
Pedro é confundido com bandido
E tudo o que as pessoas se lembram
é que o peito do pé do Pedro é preto

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04 setembro, 2006  

Eu ainda sonho

Eu estou morto
Mas já vivi

Eu estou morto
Mas já amei

Eu estou morto
Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo
E gostei disso.

Estou morto
Mas já investiguei gotas de chuva na janela

Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento

Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema

Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar

Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando

Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto

Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida

Já tive fé. Já tive dúvida.

Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno

Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.

Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica

Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva

Já coloquei dedo em vela para ver se era quente

Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto

Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.

Falei mentiras. Contei verdades.

Eu estou morto.
Mas ainda sonho.

Eu estou morto.
Mas eu ainda sonho!

Eu ainda sonho.
Eu estou morto.
Mas posso viver de novo.
Porque eu ainda sonho.

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01 setembro, 2006  

O dono da bola

Todos sabem que os filósofos, quando se cansam de divagar sobre o Cosmos em seus escritórios empoeirados, pegam seus carros amarelos e saem por aí disfarçados de taxistas. Pois bem. Outro dia fiz sinal para um filósofo no Centro do Rio de Janeiro, e ele me levou para uma viagem até minha casa, passando pelo real sentido da inclusão social.

Ao parar em um sinal do Centro, já quase deserto e recebendo os primeiros habitantes da sinistra noite urbana, fomos abordados por um senhor gordo, de longa barba branca. Ele parecia um Papai Noel maltrapilho, e vendia bolas de futebol. Ofereceu uma ao taxista, por R$ 10. Este recusou educadamente e o vendedor respondeu, sorridente, no mesmo tom. E partiu para oferecer suas bolas para outros motoristas.
Então meu filósofo particular entrou em campo.

-- Ora, veja só -- disse ele. -- Antigamente quem tinha uma bola era rei. Era o dono da bola. O cara podia ser um perna-de-pau danado, mas se tivesse uma bola, tinha o poder. Era escalado em qualquer time. Afinal, sem ele não tinha jogo. Hoje não. Qualquer um tem uma bola.

Ele não se deu conta, mas havia identificado a maior inclusão social já ocorrida no Brasil. Maior que a inclusão digital, telefônica ou educacional, vivemos a inclusão bolotal. Agora todo mundo é dono da bola.

O que se conclui disso? Que é realmente verdade que quando todos têm o poder, ninguém tem de fato poder algum. Nenhum pereba se escala na pelada de domingo por ser dono da pelota. É preciso talento ou, ao menos, amigos influentes.

Isso quer dizer que muito mais gente pode jogar futebol agora. E que, aos ruins de bola, cabe a triste sina de ficar na arquibancada ou, no máximo, marcar o Alam(brado). Esses pernetas podem ocupar seu tempo estudando. E de zagueiros medíocres acabarão virando grandes cientistas. Ou símbolos da revolução maior que se materializa sobre nós: o fim dos donos da bola.

A indústria das telecomunicaÇões ainda é dominada por alguns donos da bola. Incluo aí os grupos de mídia. Num país de 180 milhões de pessoas, contamos nos dedos da mãos aqueles que definem os que os demais assistirão na tevê, por exemplo. Como o modelo da TV Digital foi escolhido por estes mesmos donos da bola, é possível que percamos a enorme oportunidade de distribuirmos bolas às pessoas. Se ficarmos como telespectadores passivos deste cenário, tudo o que teremos é um Vale a Pena Ver de Novo com a Narjara Tureta em altíssima resolução.

A esperanÇa pode estar na iptv, comandada pelos donos da bola das telecomunicações. Como eles não se forjaram em cima de um oligopólio das idéias (mas sim num oligopólio das redes de comunicação), estes grupos estão aptos a permitir uma internetizaÇão da TV.

A inclusão digital no Brasil não se dará por computadores. No Japão foram celulares. Aqui serão os televisores. Então nosso Youtube não nascerá na internet. Quando pudermos "ser", e não apenas "ver" nossa própria programação de tevê, aí sim seremos os donos da bola da mídia. E quando todos são os donos da bola, ninguém será "O" dono da bola. Parafraseando Renato Russo, para uma sociedade, o maior poder é quando ela se permite que ninguém tenha poder algum. Essa revolução não cairá sobre nosso colo, da mesma forma que ninguém nunca me escolheu para a lateral direita de seu time. Nós precisamos fazê-la acontecer. O momento é esse, e não dá para ficar ajeitando o meião, nem marcando o alambrado.

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