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24 janeiro, 2006
Microcontos de verão 3: Um dia perfeito
Ele tinha certeza de que era seu dia de sorte. As chances de ganhar o concurso eram de uma em duzentos mil, e lá estava ele, se preparando para saltar de pára-quedas sobre um estádio de futebol em plena final do campeonato. Esperando por ele, no gramado, a mais estonteante modelo da época o aguardava, para um beijo que ele esperava não ser nada técnico. Ficou pensando nos convites para aparecer na TV que receberia após aquele salto. Era, definitivamente, a fama chegando. Finalmente a sorte lhe sorriu. Saltou. Viu o estádio se transformar de um pequeno ponto em um círculo, que ao crescer revelava seus detalhes, a arquibancada lotada, o círculo central. Um dia perfeito. Pena que o pára-quedas não quis abrir.
21 janeiro, 2006
Microcontos de verão 2: Universo paralelo
O cientista abriu exausto e desanimado a porta de sua casa. Ao entrar, levou um susto. Aquela casa não era a dele. Havia retratos seus sobre a escrivaninha que nunca havia visto. Da cozinha veio uma mulher que não era a sua, e pôde ver, de relance, filhos que não eram os seus brincando sobre o tapete no hall que dá para quartos que ele desconhecia.
Olhou pela janela e viu que o sol era mais avermelhado do que aquele que havia estudado até alguns minutos atrás. Mirou o céu e notou algo diferente no azul. Pensou: “Que droga! Você se descuida um minuto e fica preso pelo resto da vida num universo paralelo!”
Sua nova e bela esposa veio e o beijou. Sentiu um arrepio pela espinha que nunca havia testemunhado. Sorriu quando percebeu que sua nova sala tinha um imponente piano. E que na garagem havia um carro espetacular. Então foi à cozinha e beijou novamente, com ardor, sua esposa do universo paralelo. Pediu a ela uma laranja e uma faca. Então foi para a varanda de casa esperar seu eu paralelo chegar do trabalho, para explicar a situação a ele e matá-lo.
Microcontos de verão: Herói americano
Faltavam dez segundos para a bomba atômica explodir. O suor escorria pela testa do herói americano, a adrenalina acelerando sua respiração. Precisava descobrir a combinação exata no console de botões piscantes para desarmar o artefato. Sete segundos. Precisava de mais espaço para trabalhar. Jogou para longe revistas e bonecos da loja de quadrinhos que servia de fachada para o grupo terrorista. Seis segundos. Então encontrou o Batedor Anti-fogo, seu personagem favorito dos Comandos em Ação. Se lembrou de todas as aventuras, das batalhas imaginárias contra o Cobra e seu poderoso exército. Com lágrimas nos olhos, recordou-se de seu caça F-14 que abria e fechava as asas, e também do imponente transporte tático anfíbio, que carregava quase vinte soldados e boiava de verdade na piscina de sua casa. Lembrou-se de todos os armamentos de seus bonecos de plástico, e de como sonhava em um dia segurar uma M-16 de verdade e retalhar todos os seus adversários. Nisso, voltou à realidade com um estalo. Olhou para a contagem regressiva na bomba. Era tarde demais para fazer qualquer coisa. Então abraçou com força com batedor Anti-fogo e sorriu.
17 janeiro, 2006
10 coisas que você JAMAIS deve dizer se sua bagagem for pega na Alfândega:
Em tempos de férias, periga pintar alguma viagem para o exterior. Aí, o bom nerd passa metade da excursão descobrindo os canais da tevê a cabo local e economizando dinheiro para o que verdadeiramente importa: comprar coisas que piscam e que tem fios de várias cores nas lojas de informática ou no Free Shop. E a parte mais emocionante da visita ao Kilimanjaro é mesmo o instante em que o terminal do aeroporto parece oscilar entre a festiva luz verde da liberdade ou a luz vermelha do pânico. Para ajudar nesta terrível situação, segue uma pequena lista de frases que você não pode, em hipótese alguma, falar para os fiscais da alfândega caso tudo dê errado.
1) “Quando eu descobrir quem escondeu esses 15 iPods na minha mala eu mato!” 2) “iPods demais pra uma pessoa só? Nunca ouviu a expressão em ‘sou todo ouvidos’?” 3) “Eu juro que comprei essa TV de plasma por menos de US$ 500!” 4) “É claro que as trinta câmeras digitais são para uso pessoal!” 5) “O senhor bebe? É que eu trouxe tantos Johnny Walkers...” 6) “Essa mala não é minha!” 7) “Certamente tem outro Adalberto Alencastro nesse vôo!” 8) “O que esse Adalberto tá fazendo com uma foto minha na mala!?” 9) “Que azar... Logo na minha vez vocês resolvem trabalhar!” 10) “Eu jurava que esse era o corredor do ‘algo a declarar’!”
P.S.1 Sim, estou de férias. P.S.2 Não, não viajei. P.S.3 Não, eu não tenho como trazer 10 iPod nanos pra você. P.S.4 De qualquer forma eu nunca compraria um iPod. Veja mais no Embrulho de Peixe. P.S.5 Ver um iPod nano de perto quase me faz mudar de idéia e esquecer que ele é mais caro que similares da concorrência, não tem rádio, nem grava voz. Coisas que qualquer MP3 Player chinês da Casa e Vídeo faz.
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