Eu estou morto
Mas já vivi
Eu estou morto
Mas já amei
Eu estou morto
Mas já senti o álcool queimar minha garganta como serpente de fogo
E gostei disso.
Estou morto
Mas já investiguei gotas de chuva na janela
Já vi Deus no farfalhar das folhas ao vento
Já soei o nariz para esconder lágrimas no cinema
Já confiei e me decepcionei, para tornar a confiar
Já desci de ônibus andando. Já subi em ônibus andando
Já dormi e passei do ponto. Já falei demais e passei do ponto
Já falei de menos e deixei o silêncio ensurdecer a vida
Já tive fé. Já tive dúvida.
Já almocei de pé. Já jantei prato feito, requentado no forno
Já acordei cedo. Já dormi tarde. Já dormi cedo. Já acordei tarde.
Já cantei errado, conheci o cerrado, a Mata Atlântica e a Avenida Atlântica
Já nadei no mar. Já tive medo das ondas. Já me queimou uma água-viva
Já coloquei dedo em vela para ver se era quente
Já chupei gelo, estiquei corrente. Tive medo de altura. Subi mais alto
Já disse adeus. Já disse olá. Já disse bom dia, já disse como vai.
Falei mentiras. Contei verdades.
Eu estou morto.
Mas ainda sonho.
Eu estou morto.
Mas eu ainda sonho!
Eu ainda sonho.
Eu estou morto.
Mas posso viver de novo.
Porque eu ainda sonho.Marcadores: literatura, poesia