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06 agosto, 2006
Capítulo 7: a sociedade se forma
Nos capítulos anteriores, quatro bebês nasceram. Um em Londres, no dia 6/6/2006, às 6:06. Outro nasceu entre os chaggas, uma tribo africana. Outro num celeiro em Knoxville, Tennesse e mais um na casa da parteira Rose Shelley, em Belgrado. Quase ao mesmo tempo (um pouco antes ou um pouco depois dos nascimentos), um africano que deveria estar morto há quase dez anos pegou seu Leopardo e viajou para a Europa. A inglesa pegou um avião e foi para a Tanzânia. Um topetudo amante de carros velozes morreu atropelado. E o bebê que nasceu em Belgrado sabia cantigas em esperanto.
Essa história louca é fruto de um projeto tocado por mim e pelo jornalista Leonardo Paiva. A cada semana, um de nós escreve um capítulo desta história que ninguém sabe onde vai terminar. É quase um repente, só que muuuuito mais longo...
Os capítulos anteriores estão aqui:
- Prelúdio - Capítulo 1 - Capítulo 2 - Capítulo 3 - Capítulo 4 - Capítulo 5 - Capítulo 6
E logo abaixo você confere o capítulo da semana. Leia logo, antes que o mundo acabe.
Capítulo 7
– Definitivamente, os leopardos são mais dóceis que os guepardos – conclui a parteira Rose Shelley, passando o prato de bolinhos feitos em sua humilde casa em Belgrado para Yohana Lauwo e suas belas e bicentenárias tranças grisalhas africanas. – Guepardos preguiçosos. Zingós amigos. Viajar rápidos zingós podem – Confirma Yohana, olhando para Vanildo Helsing do alto de seus 1,95m. Rose Shelley se certifica de que Amarilda, Vanildo e Yohana estão com suas xícaras de chá cheias. E faz uma rápida checagem do estoque de bolinhos sobre a mesa coberta com uma bela toalha branca de renda, levemente iluminada pela luz azulada que entra pela janela da velha casa, e pela porta aberta, por onde pode-se ver o passar esporádico de alguns carros velhos e um leopardo com uma bolsa de pele de gnu no dorso, comendo urubus numa cesta. Ao lado da mesa, o recém-nascido de Vanildo e Amarilda repousa num pequeno bercinho de palha, cantando os hinos nacionais de todos os países e ilhas da Polinésia. Vanildo dá um gole enorme no chá, e sente o líquido descer queimando pelo esôfago, até se refestelar no estômago. Fecha os olhos e torce para o líquido ser um chá que acabe instantaneamente com sua confusa existência. Depois desiste, quando vê que nada de anormal acontece. Então decide tomar as rédeas da situação. – Senhor... anh... Yohana, é seu nome, certo? – Yohana Lauwo eu ser – responde o africano, com a boca cheia de bolinhos e cuspindo farelos por toda a mesa. Amarilda disfarçadamente retira algumas migalhas de seu cabelo. – Bem – prosseguiu Vanildo, se aprumando no encosto da cadeira velha de madeira – como o senhor sabia que eu precisava mesmo ir para a Tanzânia evitar o fim do mundo? Amarilda arregalou os olhos. – Vani! Que diabos é isso de ir para a Tanzânia? E eu? E nosso filho? Você não dá valor a nossa relação... – Vanildo olha para Amarilda como quem diz “pode falar o que quiser porque não tenho a menor paciência para falar sobre isso agora”. Depois se volta para Yohana, aguardando uma resposta. – Para o departamento de Cobranças e Penitências Yohana trabalhar. – começa o africano, limpando a boca com a toalha da mesa. – Em tribo de Yohana uma criança nascer. Então Yohana vir. O cérebro de Vanildo recua até o ombro. Toma fôlego e sai correndo, tentando saltar pela têmpora. Mas bate no crânio e recua, dolorido. Ele se esforça para juntar letras em sílabas e estas em palavras. – Ma...ma... mas o que uma criança tem... tinha... eu... haver comigo? – Bebê chagga nasceu e disse: “Vanildo Helsing de Belgrado aqui precisa estar, para Johnny matar, Damien aprisionar e a reformatação começar”. Então para Belgrado com Zingó Yohana ir. Vanildo diz algo mas as palavras se recusam a sair sem um adicional por insalubridade. Amarilda olha para seu chá, chorando, e começa a achar que algumas galáxias se formam na superfície do líquido. Rose Shelley se levanta e caminha lentamente até um quartinho. Depois volta com três valises e as deposita com cuidado junto à porta. Faz um cafuné no Leopardo (“quem é o gatinho da mamãe?”) e volta ao cômodo. Sai de lá com um fuzil AR-15, que o entrega a Vanildo. – Suas malas estão prontas. A com lacinhos azuis é a sua, a de laço rosa é de Amarilda. Como não sabia se seu bebê nasceria menino ou menina, pus um lacinho verde na malinha dele. Ali tem fraldas, leite e a obra completa de Nietzsche. Ele pedirá para ler a qualquer momento. – Que arma é essa? – pergunta Vanildo. – É só por precaução. Nunca se sabe, né? Os leões... Yohana se levanta. – Partir agora precisamos todos. Amarilda se aproxima de Vanildo e pergunta em seu ouvido: – Você está mesmo pensando em nos levar para a Tanzânia no lombo de um leopardo com um fuzil nas costas para matar uma pessoa e prender outra? Vanildo olha para seu bebê no bercinho de palha, que agita o tecido do babador e recita Otelo, de Shakespeare, com forte sotaque mandarim. – Parece ser a coisa mais sensata a fazer.
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