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21 agosto, 2006
Capítulo 9: o plano se explica
Entramos na fase final do fim do mundo mais enrolado da galáxia. Qual será a missão de Vanildo Helsing nessa jornada? E de onde vieram tantos bebês? E porque eles sabem falar esperanto, cantam o hino da Nova Zelândia e discutem filosofia? E o que um topetudo faz preso em espelhos? Confira.
- Prelúdio - Capítulo 1 - Capítulo 2 - Capítulo 3 - Capítulo 4 - Capítulo 5 - Capítulo 6 - Capítulo 7 - Capítulo 8
Capítulo 9
No meio de Belgrado, na Sérvia, há uma casa. Uma casa velha, com uma porta velha e uma janela velha sob um telhado velho. No lado de dentro da casa, há uma senhora igualmente velha, que vem a ser dona daquela residência, um casal que acaba de ter seu primeiro filho, o primeiro filho de tal casal e um africano de 1,95 e longas madeixas grisalhas. Na porta dessa casa há um Leopardo.
Dentro da casa, Vanildo Helsing pendura o fuzil nas costas e ergue as três malas, enquanto Amarilda segura o bebê recém-nascido. Antes de saírem rumo à Tanzânia, Rose Shelley, a dona do casebre, resolve dizer algumas palavras.
– Então, meus docinhos de coco, vocês entenderam bem a natureza de sua missão?
Vanildo olha para Rose Shelley com uma cara de “você só pode estar brincando comigo. Estou prestes a sentar no lombo de um leopardo com um fuzil nas costas, meu filho recém-nascido não pára de cantar óperas turcas e eu vi galáxias no espelho de seu banheiro”. Rose entende perfeitamente o que aquela expressão embasbacada significa e olha para Yohana Lauwo, como se pedindo permissão.
– Yohana partir logo precisa. – O africano só não pontua a frase batendo com seu cajado no chão porque não está segurando cajado algum.
– Sempre há tempo, jovem Yohana, sempre há tempo. – Diz Rose, puxando Vanildo pelas mãos de volta para a mesa ainda coberta de farelos de bolinhos.
– Tudo começou há uns trinta mil anos, quando a Terra foi reformatada pela última vez. – explica Rose, fazendo pausas de quase dez segundos entre uma frase e outra, dando sorrisos saudosos e revelando aquele brilho nos olhos que só têm aqueles que estão desencavando o próprio passado na memória.
Vanildo decide que o mais prudente é não questionar qualquer informação, por mais absurda. Enquanto isso, Amarilda tenta convencer o rebento dos benefícios do aleitamento materno, enquanto ele questiona os benefícios do cálcio no organismo dos recém-nascidos.
– A cada reformatação, alguns bebês especiais nascem. – prossegue Rose, enquanto passa manteiga em um pedaço de pão. – Eles estão prontos para liderar as novas gerações que repovoarão o planeta. É um processo salutar, apesar de incompreendido. É como uma máquina de lavar, se você me entende.
– Sim, claro. É como uma máquina de lavar. Tudo isso, do Leopardo ao fim do mundo, tem tudo a ver com uma máquina de lavar – Vanildo se surpreende com o inesperado cinismo. Gosta da performance e fica orgulhoso de si mesmo. Talvez o AR-15 nas costas, apesar de impedir que ele se apóie no encosto da cadeira, fornece uma coragem adicional que ele jamais havia sentido.
– Então. Uma máquina de lavar. A gente até pode ir consertando os problemas que acontecem com o tempo, mas chega uma hora em que o melhor mesmo é jogar a máquina velha fora e comprar uma nova.
– É como esvaziar a lixeira do Windows – diz Amarilda, se metendo na conversa.
– Pois bem. Mas nem todos os bebês devem crescer e liderar a humanidade. Cada departamento manda alguns representantes, em busca de maior poder na nova versão do planeta. E cada departamento quer que seus bebês sobrevivam, é claro.
– E para que departamento vocês trabalham? – pergunta Vanildo com o único neurônio de seu cérebro que não cometeu harakiri – Quer dizer, supondo que vocês trabalhem para algum destes... departamentos...
– Para o departamento de Cobranças e Penitências Yohana trabalhar – se manifesta o africano.
– Ah é, tinha esquecido... e... por que eu?
– Ora, meu fofoletezinho... – recomeça Rose. – todos sabemos da linhagem de sua família... sua e a da sua esposa...
– EU?!?!? – Assusta-se Amarilda. O recém-nascido desata a chorar.
– Sim, meu doce. Vocês têm muitas penitências a pagar... buffer cósmico, se você me entende. Pois então. Tudo o que vocês precisam fazer é estar no topo do Klimanjaro na hora certa, impedir que as outras crianças cheguem ao cume e matar qualquer topetudo que apareça por lá.
– Por que eu deveria matar topetudos? Eles oferecem risco à humanidade?
– Não... não muito. Mas Johnny Hellmont é a reencarnação do bebê que deu origem à era em que vivemos. À era das máquinas. Enquanto ele estiver vivo, a reformatação no poderá ser concluída.
– E se a reformatação não for concluída?
– Aí meu docinho. Será o fim de tudo. Definitivamente. O processo já foi iniciado. Ele pode ser concluído por algum dos bebês, ou adiado por Johnny Hellmont. Mas, se por um acaso, Johnny Hellmont não estiver nem vivo, nem morto, o processo não terminará.
– Esse Johnny Hellmont... ele... é topetudo mesmo?
– Sim. Muito topetudo.
– E se alguém estiver preso num espelho, ao lado de várias galáxias... essa pessoa esta viva ou morta?
– Nesse caso, eu diria, meu fofonho, que a pessoa não está nem viva, nem morta. Ela está presa num nível inferior subadjacente da burocracia celestial, impedido de reencarnar ou de seguir para o descanso eterno.
– E, apenas supondo, se Johnny Hellmont estiver nesse nível inferior subadjacente da burocradia celestial? – Vanildo pergunta, temendo a resposta.
– Aí, meu bolinho de açafrão... nós estamos ferrados.
18 agosto, 2006
Burro mesmo é o cavalo
Paul Manger é um neurologista sul-africano. Segundo reportagem na edição de 18 de agosto de O Globo, ele chegou a uma conclusão assustadora: golfinhos são estúpidos. Tapados. Burros. Ignorantes. Toscos. Imbecis. Mobral total. Zé arruelas. Ou seja, mamíferos aquáticos desprovidos de qualquer intelecto.
Tal conclusão desafia o senso-comum de que a família de Flipper é, na verdade, super-hiper-inteligente. Até o gênio Douglas Adams baseou sua saga O Guia do Mochileiro das Galáxias no fato de golfinhos serem inteligentemente sabidos pra caramba.
Paul Manger acha que golfinhos são estúpidos porque eles não pulam de suas piscinas acrobáticas em Miami. E também porque seu cérebro tem mais enchimento do que neurônios. Mas isso é detalhe.
Então venho aqui desmascarar esse impostor de Paul Manger e provar que ele está errado. Seus argumentos são totalmente desprovidos de sentido. Parecem idéia de golfinho, digo, jumento. Pois vejamos:
1 – O homem é considerado um animal inteligente. Logo, deve agir de forma radicalmente diferentes de golfinhos.
2 – Mesmo assim, milhões de imigrantes ilegais comeriam peixe cru todo dia justamente para poder entrar na piscina dos golfinhos de Miami, morar lá e arrumar um emprego como taxista. Ou seja: quem pode condenar os golfinhos por não tentarem fugir da piscina se humanos matariam a Deborah Secco para estar lá?
3 – Paul Manger diz que qualquer animal inteligente, se ficar dentro de uma caixa, tentará escalar suas paredes para subir. Ora, quem já viu humanos tentando escalar a parede de elevadores? Ou pulando da janela de seus empregos enfadonhos? (ok, ok... esse item acontece vez em quando).
4 – E quantos humanos que você conhece conseguiriam nadar em círculos em alta velocidade, dar saltos acrobáticos por dentro de bambolês e ainda correr de costas sobre a água batendo palmas e comendo peixes crus?
5 – Por fim, a suprema injustiça. Imbecis mesmo, toscos, mobral, ignorantes e burros são, para mim, os cavalos. Ser mais subserviente não existe. Eles são irritantes. Você amarra um cavalo de uns 200 quilos num vareto e ele vai ficar a noite toda ali, na chuva, ou de dia sob um sol inclemente. Nem uma sombra o eqüino procura. Ele não argumenta, não questiona.
Cavalos nunca nadariam de costas sobre a água batendo palmas e comendo peixes crus. Logo, deixem os golfinhos em paz! Burro mesmo é o cavalo.Marcadores: cotidiano, humor
17 agosto, 2006
Por total falta de tempo, e até mesmo porque o autor dessa semana é o Leonardo Paiva, faço aqui o link para o oitavo capítulo de nossa trama, copiando e colando descaradamente até o parágrafo de introdução de Mr. Paiva.
"Estamos no oitavo capítulo desde conto que nos levará ao fim do mundo mas, até agora, não faço a mínima de como será o fim da história. Nem eu e nem Roberto Cassano, o co-autor desta obra, escrita no esquema pingue-pongue (cada um escreve um capítulo sem ter idéia do que o outro fará a seguir).
Se você perdeu o burrito dessa história, confira os capítulos anteriores nos links abaixo: - Prelúdio - Capítulo 1 - Capítulo 2 - Capítulo 3 - Capítulo 4 - Capítulo 5 - Capítulo 6 - Capítulo 7
No capítulo desta semana, um mexicano entra de gaiato na história e está pouco se !@#$% para ela.
Clique AQUI para ler o oitavo capítulo.
06 agosto, 2006
Capítulo 7: a sociedade se forma
Nos capítulos anteriores, quatro bebês nasceram. Um em Londres, no dia 6/6/2006, às 6:06. Outro nasceu entre os chaggas, uma tribo africana. Outro num celeiro em Knoxville, Tennesse e mais um na casa da parteira Rose Shelley, em Belgrado. Quase ao mesmo tempo (um pouco antes ou um pouco depois dos nascimentos), um africano que deveria estar morto há quase dez anos pegou seu Leopardo e viajou para a Europa. A inglesa pegou um avião e foi para a Tanzânia. Um topetudo amante de carros velozes morreu atropelado. E o bebê que nasceu em Belgrado sabia cantigas em esperanto.
Essa história louca é fruto de um projeto tocado por mim e pelo jornalista Leonardo Paiva. A cada semana, um de nós escreve um capítulo desta história que ninguém sabe onde vai terminar. É quase um repente, só que muuuuito mais longo...
Os capítulos anteriores estão aqui:
- Prelúdio - Capítulo 1 - Capítulo 2 - Capítulo 3 - Capítulo 4 - Capítulo 5 - Capítulo 6
E logo abaixo você confere o capítulo da semana. Leia logo, antes que o mundo acabe.
Capítulo 7
– Definitivamente, os leopardos são mais dóceis que os guepardos – conclui a parteira Rose Shelley, passando o prato de bolinhos feitos em sua humilde casa em Belgrado para Yohana Lauwo e suas belas e bicentenárias tranças grisalhas africanas. – Guepardos preguiçosos. Zingós amigos. Viajar rápidos zingós podem – Confirma Yohana, olhando para Vanildo Helsing do alto de seus 1,95m. Rose Shelley se certifica de que Amarilda, Vanildo e Yohana estão com suas xícaras de chá cheias. E faz uma rápida checagem do estoque de bolinhos sobre a mesa coberta com uma bela toalha branca de renda, levemente iluminada pela luz azulada que entra pela janela da velha casa, e pela porta aberta, por onde pode-se ver o passar esporádico de alguns carros velhos e um leopardo com uma bolsa de pele de gnu no dorso, comendo urubus numa cesta. Ao lado da mesa, o recém-nascido de Vanildo e Amarilda repousa num pequeno bercinho de palha, cantando os hinos nacionais de todos os países e ilhas da Polinésia. Vanildo dá um gole enorme no chá, e sente o líquido descer queimando pelo esôfago, até se refestelar no estômago. Fecha os olhos e torce para o líquido ser um chá que acabe instantaneamente com sua confusa existência. Depois desiste, quando vê que nada de anormal acontece. Então decide tomar as rédeas da situação. – Senhor... anh... Yohana, é seu nome, certo? – Yohana Lauwo eu ser – responde o africano, com a boca cheia de bolinhos e cuspindo farelos por toda a mesa. Amarilda disfarçadamente retira algumas migalhas de seu cabelo. – Bem – prosseguiu Vanildo, se aprumando no encosto da cadeira velha de madeira – como o senhor sabia que eu precisava mesmo ir para a Tanzânia evitar o fim do mundo? Amarilda arregalou os olhos. – Vani! Que diabos é isso de ir para a Tanzânia? E eu? E nosso filho? Você não dá valor a nossa relação... – Vanildo olha para Amarilda como quem diz “pode falar o que quiser porque não tenho a menor paciência para falar sobre isso agora”. Depois se volta para Yohana, aguardando uma resposta. – Para o departamento de Cobranças e Penitências Yohana trabalhar. – começa o africano, limpando a boca com a toalha da mesa. – Em tribo de Yohana uma criança nascer. Então Yohana vir. O cérebro de Vanildo recua até o ombro. Toma fôlego e sai correndo, tentando saltar pela têmpora. Mas bate no crânio e recua, dolorido. Ele se esforça para juntar letras em sílabas e estas em palavras. – Ma...ma... mas o que uma criança tem... tinha... eu... haver comigo? – Bebê chagga nasceu e disse: “Vanildo Helsing de Belgrado aqui precisa estar, para Johnny matar, Damien aprisionar e a reformatação começar”. Então para Belgrado com Zingó Yohana ir. Vanildo diz algo mas as palavras se recusam a sair sem um adicional por insalubridade. Amarilda olha para seu chá, chorando, e começa a achar que algumas galáxias se formam na superfície do líquido. Rose Shelley se levanta e caminha lentamente até um quartinho. Depois volta com três valises e as deposita com cuidado junto à porta. Faz um cafuné no Leopardo (“quem é o gatinho da mamãe?”) e volta ao cômodo. Sai de lá com um fuzil AR-15, que o entrega a Vanildo. – Suas malas estão prontas. A com lacinhos azuis é a sua, a de laço rosa é de Amarilda. Como não sabia se seu bebê nasceria menino ou menina, pus um lacinho verde na malinha dele. Ali tem fraldas, leite e a obra completa de Nietzsche. Ele pedirá para ler a qualquer momento. – Que arma é essa? – pergunta Vanildo. – É só por precaução. Nunca se sabe, né? Os leões... Yohana se levanta. – Partir agora precisamos todos. Amarilda se aproxima de Vanildo e pergunta em seu ouvido: – Você está mesmo pensando em nos levar para a Tanzânia no lombo de um leopardo com um fuzil nas costas para matar uma pessoa e prender outra? Vanildo olha para seu bebê no bercinho de palha, que agita o tecido do babador e recita Otelo, de Shakespeare, com forte sotaque mandarim. – Parece ser a coisa mais sensata a fazer.
Capítulo 6: Um Leopardo no fim do mundo
Com um pequeno atraso no cronograma, Leonardo Paiva anuncia o sexto e eletrizante capítulo da saga que pode terminar no fim do mundo ou num boteco em Piracicaba. Tudo é possível. Um atraso maior ainda de minha parte fará com que o sétimo capítulo saia a qualquer momento. Descubra agora como se fala Leopardo na língua da Tanzânia. CLIQUE AQUI.
Se você está pegando o leopardo no meio do caminho, leia antes os capítulos anteriores:
- Prelúdio - Capítulo 1 - Capítulo 2 - Capítulo 3 - Capítulo 4 - Capítulo 5
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