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14 abril, 2005
Meu clone é hipocondríaco
Tem um outro eu andando por aí. Acho que ele mora em São João de Meriti. E também acho que é hipocondríaco, porque foi três vezes à farmácia em uma semana. Também deve ter uma família grande. Foram oito compras em supermercados no mesmo período. Mas nem tudo é ruim na vida de meu clone. Ele tem carro, e pôde abastecê-lo duas vezes entre as idas e vindas aos mercados. Descobri que ele existia por carta. Não teve ninguém da produção do Fantástico ou do Domingo Legal acompanhando. Foi pela fatura do cartão de crédito que soube da existência desse outro eu, consumista e hipocondríaco. Nada contra um outro Cassano andando pelo país, fora o desequilíbrio ecológico que dois eus podem causar perambulando mundo afora. O único problema é que ele, talvez por engano, fez todas as compras no meu cartão de crédito. Acho bacana dividir as coisas, especialmente se formos dividi-las com nós mesmos. Mas bem que ele poderia ter pedido, ou ao menos se apresentado. “Oi. Eu sou você. Me empresta seu cartão de crédito?” Coisas da tecnologia, que às vezes funciona como analgésico. Clonaram meu inclonável cartão com chip e, assim, fui assaltado sem sentir nada, sem sustos, sem constrangimentos. Não é ótimo viver num mundo moderno e civilizado?
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